A ‘sutil’ diferença entre Leiria e Santo Antônio da Platina

Cidade portuguesa tem rua com o nome de sua coirmã paranaense, mas os cuidados públicos fazem a diferença

Rua Santo Antônio da Platina, em Portugal CRÉDITO: Divulgação

Quem passa pela Rua Vieira de Leiria, no Bairro Vista Alegre, em Santo Antônio da Platina, que dá acesso ao Morro do Bim e onde existe uma subestação da Sanepar e várias residências, bem próximo do centro da cidade, não imagina que o nome exótico da via foi uma troca de gentilezas entre as câmaras legislativas da cidade portuguesa de Leiria e o Legislativo platinense.

Pouca gente sabe e até mesmo os moradores do local que o nome daquela rua de terra faz parte de uma simbólica homenagem de iniciativa dos portugueses e seus descendentes que chegaram à região na década de 1930, vindos da cidade homônima do centro de Portugal, Leiria, e por aqui se estabeleceram.

Como parte desse intercâmbio cultural e de amizade, no país lusitano, a mesma homenagem foi feita pelos portugueses leirenses e a Câmara de Vereadorers daquela cidade, numa troca de gentilezas com seus patrícios e o Legislativo platinense, batizaram uma via urbana com o nome Rua Santo Antônio da Platina.

Vieira de Leiria, uma freguesia praiana do Concelho da Marinha Grande, Portugal, com aproximadamente 10 mil habitantes, distante 150 km da capital Lisboa, está a importante Rua Santo Antônio da Platina (fotos), que corta a localidade portuguesa e quem a cruza sabe que se trata do nome de uma cidade brasileira para onde muitos leirenses imigraram. A placa na conservada rua anuncia “Santo António da Platina, cidade amiga do Brasil”.

Rua Vieira de Leiria, em Santo Antônio da Platina
CRÉDITO: Divulgação

O português Antonio Tomé, 84 anos, que reside na vila, fala com saudade dos familiares que vieram para o Paraná “quando passo na Rua Santo Antônio da Platina, aqui em Vieira de Leiria, meu coração enche de saudades dos meus parentes que estão no Brasil. Essa rua significa muito pra nós e cuidamos muito dela”.

Se em Leiria, Portugal, a Rua Santo Antônio da Platina chama a atenção pelos cuidados com o asfalto, tamanho, importância e saudosimos, em Santo Antônio da Platina, a pequena Rua Vieira de Leiria é o oposto do que se vê no distrito português. Sem ter nem mesmo asfalto, seus moradores e transeuntes reclamam há anos do abandono.

No período de chuvas, os moradores precisam enfrentar as fortes enxurradas e desviar das crateras que se formam em toda a sua extensão. Já no período de seca, o problema se agrava, pois o volume de poeira e sujeira afeta o ar causando problemas respitários.

Mesmo com vários abaixo-assinados com pedidos de pavimentação encaminhados à prefeitura, o problema continua sendo tratado com indiferença pelos gestores públicos.

A moradora Adriana Arantes, que encampa a luta pelo asfaltamento da simbólica rua, autora de diversos expedientes e que participou de várias reuniões tanto na Prefeitura como na Câmara dos Vereadores, fazendo inclusive uso da tribuna daquele órgão em 2017, se diz orgulhosa pela consideração do povo português à cidade de Santo Antônio da Platina.

“A Rua Vieira de Leiria tem um valor sentimental e trata-se de uma bela homenagem nominal de iniciativa dos ‘portugueses-platinenses’ aos ‘portugueses-leirenses’ daqui. Foi uma honra e um sinal de irmandade e reconhecimentos mútuos essa troca de homenagens tanto daqui como lá, mas até a placa doada por eles está perdendo a cor de tanta poeira que resulta dessa situação terrível que enfrentamos diariamente por aqui ao contrário de Portugal”, desabafa a moradora.

Indagada sobre o andamento dos pleitos administrativos encaminhados à Prefeitura sobre a questão da pavimentação, Adriana Arantes acrescenta que, depois de dezenas de idas e vindas, uma série de documentos protocolados e reuniões sucessivas para detalhar a situação, “o tal projeto, que tanto alegaram ser necessário elaborar para realizar a pavimentação foi concluído, mas tudo só ficou no papel até agora”.

Segundo a moradora, basta passar pela rua e ver a situação, fora os carros e caminhões que os moradores têm de suportar sem quaisquer condições de tráfego. “Ali as pessoas caem e se machucam com o entulho, os inquilinos vão embora devido às más condições e o comércio sofre recolhendo pedras e lama. É um martírio. Isso tudo na ‘cara’ da Prefeitura. Minha mãe lutou tanto para ver a Rua Vieira de Leiria pavimentada e faleceu sem ter o sonho realizado”, lamenta.

Tráfego pesado agrava situação de moradores

Adriana Arantes conta que a Rua Vieira de Leiria, tem pouco mais de 800 metros de extensão por sete metros de largura e, mesmo assim é usada até como corredor de ônibus e caminhões de carga pesada e betoneiras, quando não ainda os moradores têm de suportar a passagem de rolo compressor de 15 toneladas que a Prefeitura utiliza numa tentativa de soterrar pedras colocadas depois de chuvas torrenciais e que, por ser imensamente pesado, mexe com as estruturas das moradias e até do quarteirão vizinho.

“Treme tudo e os movéis e utensílios domésticos saem do lugar. Da última vez, as trincas nas moradias aumentaram e nenhum representante da Prefeitura quis entrar para ver o resultado, apesar de se fazerem presentes na minha calçada assistindo aquela humilhação quando pedi para não entrarem com as máquinas e o rolo compactador sem avaliar os estragos anteriores”, salientou.

A moradora revela ainda que, devido à precariedade da Rua Vieira de Leiria, precisou fechar com tijolos as duas janelas de sua casa que davam para a via “É o cúmulo o que tive de fazer, mas, de tanto pó que levanta, fui obrigada a fechar com tijolos as duas janelas da frente da rua e guardar as venezianas no depósito para um dia recolocá-las no lugar. Nem a porta da casa eu posso abrir direito. Meus móveis são cobertos diariamente por panos para não sujar tudo. A gente aguenta porque é dono”, desabafa lembrando que está com seu IPTU em dia. “Para cobrar IPTU a Prefeitura marca em cima, e minha conta de água é bastante alta. Tudo por causa desse flagelo aqui. Fora a minha calçada, que gastei bastante para fazer e, logo, logo vai virar entulho com as enxurradas”.

Homenagens

Sobre a homenagem feita pelos portugueses, Adriana diz conhecer a história e valoriza a iniciativa, porém foi enfática: “Os platinenses que vão a Portugal e visitam Praia da Vieira e Vieira de Leiria tiram fotos da Rua Santo Antônio da Platina e veem um lugar muito agradável, cuidado, com asfalto impecável. Agora, se os portugueses de lá de Vieira de Leiria viessem aqui para conhecer a rua que leva o nome da aldeia deles e vissem de perto esse tormento diário certamente aceitariam fácil trocar o nome dela para ‘Rua do Sofrimento’ e ficariam perplexos de uma vila portuguesa tão linda e bem cuidada como aquela ter seu valoroso nome estampado numa rua esquecida como essa”.

Outro lado

A Secretaria de Obras de Santo Antônio da Platina informou que o projeto de pavimentação da via está pronto desde 2017 e que aguardam verbas para iniciar as obras, porém, sem previsão de início.

O Departamento de Trânsito, para onde outro requerimento da moradora foi encaminhado em razão da necessidade de estudos sobre o trânsito local e mudança da mão única e construção de uma rotatória para controlar a velocidade dos carros e evitar acidentes, não respondeu à solicitação de Adriana Arantes.

Já a Secretaria de Saúde, procurada pela moradora, informou que o requerimento para averiguação técnica da situação da saúde pública local e os impactos das más condições da rua na vida dos moradores está com o prefeito.

Enquanto os platinenses lamentam o estado precário da Rua Vieira de Leiria, nesta cidade, quem utiliza a rua Santo Antônio da Platina, em Portugal, vive efetivamente no primeito mundo, onde gestão pública é levada com seriedade e responsabilidade.